19/01/2012

Ghawazee

Olá meninos e meninas!

Este post tem tranquilamente uns dois anos, no mínimo. Sempre ensaio em escrever sobre isso por aqui e não rola: acho que não ta bom e descarto. A primeira vez que eu ouvi falar de Ghawazee foi bem de leve na época que eu fazia aula na (até então) Luxor, em 2004 mais ou menos, mas como me falaram "eram as ciganas árabes" eu fiz uma ideia baseada no senso comum que não tinha nada a ver. Não conseguia visualizar a coisa muito bem.
E ai o tempo passou e a cada época eu ia descobrindo algo diferente, até chegar na ideia que eu tenho de uma ghawazee hoje.

A ghawazee (ou ghawazi, gawazi - a grafia varia bastante) é uma dançarina. É uma mulher que vive de dançar - não necessariamente no sentido poético da coisa, mas sim no seu sentido monetário. Ela é uma dançarina profissional de alguns séculos atrás (há registros famosos do séc. XVIII, mas também há registros de 800 d.C), geralmente estrangeira, mas que dançava profissionalmente no Egito da época, trabalhando com entretenimento para ganhar a vida. Eram contratadas para feiras, casamentos, festas, para entreter os convidados e animar o evento com sua dança. Mas nem tudo era flores na vida destas trabalhadoras. Muitas eram prostitutas e mesmo quando não eram, eram vistas como marginais. Houve, inclusive, uma proibição para essas mulheres (de que falarei adiante). Segundo a opinião da sociedade de um modo geral, não estavam nos padrões de moral estabelecidos então. Alem de designar uma classe de dançarinas, chamar uma mulher de ghawazee ou ghazya era um insulto, e dizia respeito à promiscuidade e falta de respeito próprio da mulher. Queria dizer "prostituta".

Sobre a roupa. Agora pensa que contrataram você para um show super mega master, e ai você vai separar aquela roupinha toda remendada de dança do ventre que você tem no fundo do armário. Certo? ERRADO! As ghawazee estavam sempre bem vestidas, para chamar a atenção e agradar o público. As mais bem sucedidas financeiramente usavam vestidos de tecidos nobres, bem decotados ou com os seios de fora, por cima de uma calça larga, mais ou menos como uma bombacha. O traje foi mudando ao longo do tempo, e o que se popularizou foi um vestido comprido, muito usado por elas no sec XVIIII, de mangas largas, decotado, acompanhado ou não por um colete. Além disso, levavam diversos adereços, como braçaletes, colares, tiaras, moedas, lenços e todo tipo de acessório. As ghawazee mais pobres tentavam, dentro de suas condições, parecer também o mais bela possível, enfeitando-se como podiam para estar bonita e agradar o público que lhe dava o sustento.





Hoje em dia quando se monta uma coreografia de ghawazee, é muitas vezes dançada com aquelas galabias de baladi (sabe?), porque o modelo (de manga, justo no quadril e comprido) é bem parecido com a ideia do vestido das ghawazee que vocês viram se repetir nas fotos ai em cima.

Muitas ghawazee eram ciganas. Dizem que as primeiras, inclusive, eram ciganas da tribo Nawar, e chegaram ao Egito pelo sul do país, até estabelecer-se na região do Vale do Nilo. Vamos combinar que nada mais cigano que andar de cidade em cidade ganhando a vida com dança, até quem só conhece os clichês consegue visualizar essa ideia. E ai que você faz uma bela busca por "ghawazee" no Youtube e mais cedo do que esperava, encontra vídeos que misturam a imagem da cigana ibérica dançando um belo flamenco árabe, balançando um longo leque e uma grande rosa prendendo uma parte do cabelo. Não, isso não corresponde à ideia tradicional da ghawazee. Não vou entrar no mérito do que pode e não pode fazer, mas tradição é uma coisa, fusão, adaptação e inspiração são outras. A ghawazee de que eu falo está muito mais próxima do Kalbelya, por exemplo, do que do Flamenco. São épocas diferentes, civilizações diferentes, portanto, danças diferentes.

E é exatamente por isso que aquele braço arqueado do flamenco, nada tem a ver com a ghawazee tradicional. Os movimentos que devemos considerar são protagonizados em geral pelo quadril: muitos twists, pé no chão, batidas de quadril, shimmies, passinho do hagalla, tudo isso. É uma dança mais pesada que fofinha, é forte e impactante. Com os braços, consideremos sempre que estão acenando, chamando, animando o público, ou servindo como moldura para destacar mais ainda o quadril. O snuj é elemento constante, por isso as mãos geralmente estavam ocupadas com ele, ou com outro elemento que, dependendo da criatividade da bailarina, poderia ser um pandeiro, um bastão, um lenço, algo que pudesse ser incorporado à dança e enriquecer a apresentação. O zaghrit (sabe o lilili?), as palmas e as rodas tambem são bastante tradicionais. Esquece a deusa do Nilo, a bailarina clássica: a ghawazee tem muito mais a ver com com uma shaabi (no sentido de dança popular) do que com a Samia Gamal. Precisa ser natural, livre, popular. Alias vamos combinar mais uma vez que folclore tem que ter cara de folclore. Folclore com cara de clássico não presta, né, minha gente?

Sobre a música. As percussões fortes, o rebab, o mizmar, as palmas e o zaghrit são sons comuns nas músicas ghawazee. Para você, amiga dona de casa, que quer montar um ghawazee, nada de flamenco árabe, nada de música modernosa, nada de tecladinho. Quanto mais "raiz" a música, mais ghawazee ela será. Quem quiser ter em seu repertório, posso compartilhar alguns arquivos, como a Samy compartilhou comigo =D

Sobre os homens na dança ghawazee: li que quando eles dançavam, o faziam vestidos e caracterizados de mulher, chegando a disputar o espaço do entretenimento com elas. Em 1834, quando foi decretada uma proibição no Egito de que falei lá em cima no post (relacionada a questões religiosas em prol da moral e "bons costumes", como diria a legislação brasileira hehe) que vetava as danças femininas em público, entraram esses homens (os Khawal) para preencher o espaço vazio no mercado do entretenimento, e segundo o livro que eu li (vou lembrar do nome, eu juro, eu TENHO a referência em algum lugar), eles também se pintavam como elas, usavam o turbante, muitos adereços e o peito descoberto e tocavam de maneira habilidosa o snuj, como era comum entre as então dançarinas. Mais tarde a proibição caiu, mas as dançarinas continuaram sendo mal vistas e discriminadas por grande parte da sociedade egípcia.

Agora deixo com vocês dois videos de que gosto muito (um é do Latcho Drom, já falei sobre esse filme aqui no blog, e outro é nacional UHU!!), para dar uma ideia melhor e também perceber o estilo de música que se utiliza:





Outros blogs e sites já publicaram coisas legais a respeito do ghawazee (os dois primeiros são MARA), olha só:
E para fechar, um presente pra vocês. Apesar do vídeo falar da dança oriental como um todo, tem inúmeras fotos de ghawazee ao longo dos slides. Está em Inglês, mas é bastante claro e com um pouquinho de esforço e atenção, dá pra entender. Achei um TUDO! Espero que gostem, um grande beijo a todos (so clicar no link a seguir).

6 recadinhos a respeito:

Jacqueline Nunislima disse...

Chi, adoro ler seu blog sempre! Seus posts são sempre muito sensatos e interessantes!
Toda vez que eu venho aqui, uma coisa me manda voltar a dançar!!!

Bjn, querida!
Jacque.

Joyce Lima Borges disse...

Adorei!!! Me deu uma vontade de fazer uma coreo Ghawazee =]

Natalia disse...

Oi Jacque!! Flor, então solta uma musica e aproveita o impeto!!!! Só é preciso um par de minutos, uma música (que pode ser até cantarolada, por que nao?), um espacinho ainda que minimo e boa disposição? DANÇA QUE A VIDA É CURTA!! Um beijo grande e obrigada pelo comentario!

Natalia disse...

Mãos a obra, Joyce!! Eu tô bolando uma e curtindo cada pedacinho do processo, uma delícia!! Beijocasssss

Sahira Ma Ajniha disse...

Ola minha lindaaa. Parabens pelo texto. Falou tuuuuuddooooo. Bjs querida OPTCHAAAA

MARYAH TALISMAS disse...

Muito bacana o blog !!!eu danço estilo Ghawazee e fiquei feliz que faço tudo certinho !!!